domingo, 2 de junho de 2024

Relato noturno de 02/06/2024

A noite chega com a alegria presente
apenas em momentos passados;
conforme o tempo passa,
o silêncio toma seus postos,
como pontuais soldados exemplares
que se dispõem na labuta rotineira da desilusão
soltando versos no vazio universo
e perdendo a poesia da própria poesia.

O barulho dos carros, das músicas, das crianças brincando e dos latidos
estão no tempo remoto e desconhecido que povoam a história.

O tiquetaquear do relógio da cozinha acompanha
essa sensação de abandono,
transferindo, para o sono desperto, a responsabilidade
de ocupar a mente e direcionar os pensamentos,
se esforçando para não deixar a tristeza e a desilusão
se apossarem do manche deste barco emocional decadente em que me encontro.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Na vastidão do frio da tua companhia

Na ilusão da companhia abstrata do teu ser
vislumbro uma oportunidade de diálogos e prosopopeias
pois é o que tenho recebido há anos.
E, há anos, passo dias vazios, mesmo em meio a multidões
ou mesmo em companhias específicas vagas.

Como um galho que não floresce
um espelho que não reflete
uma chama que não aquece
ou um sonho que não realiza.

Como um passo não concluído
em meio a um caminho que só existe na mente do outro;
como um relance de tristeza que não é forte o bastante
para parir uma lágrima no frio escuro da solidão acompanhada.

Como um sorriso forçado,
no momento de descontração casual,
ou ignorado como um belo papel amassado
em meio aos losangos preto-e-brancos na calçada da vastidão

O fundo do sentimento que sugere a tristeza é amargo,
fétido,
impuro.
É desorganizado
e mesmo assim consegue enfurecer a mais perfeita sintonia de olhares;
tem poderes que,
se fossem usados na luz,
traria à tona o ímpeto desejo de amar
ao som das trombetas celestes que anunciam o próprio amor.

E quando a luz do teu olhar se voltar novamente para o que o iluminou,
renasceremos,
como duas pedras de gelo que se derretem
para iniciarem o riacho do que os deuses chamam de... amor recíproco.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Relato noturno de 20/04/2024

Há dias em que somos rudes,
muito mais com nós mesmos do que com os outros.
Em alguns micro-intervalos,
acompanhados de uma respiração sentida,
esperamos por um milagre que nunca chegará;
um milagre que alivia
esse sentimento perturbador
que se aposta das nossas vontades mais e menos virtuosas simultaneamente,
formando pequenos parágrafos em meio a tantos outros na nossa vida,
que acabam rebaixando a qualidade de todo o texto.

Há dias em que nos sentimos impotentes,
inertes em meio a um mar de oportunidades,
como um galho que, ainda verde,
não serve para alimentar a fogueira dos passos da vida
e passamos boa parte da música apenas imaginando-a ser cantada.

Há dias em que a gratidão toma forma, toma corpo
e se faz presente em cada respiração,
feito um ponto colorido que completa a pintura
e permite que o artista se expresse no mais alto teor da arte.
É nesses dias que nos permitimos, mesmo sem saber,
dar um passo importante na evolução interna e,
de dentro para fora,
mostramos ao mundo que precisávamos ser rudes e imperfeitos.
Ainda que machuquemos outras pessoas,
mesmo sem querer,
a dor maior ainda é sentida aqui dentro
porém, agora, em menor escala e intensidade.